A graduação nas artes marciais japonesas

por Helton dos Santos

Praticantes de Judô, Aikidô e Karatê já estão acostumados com os kyu e dan que representam sua graduação. Normalmente vinculados a alguma cor de faixa, este sistema, chamado Dan-i, teria sido criado por Honinbo Dosaku, um dos maiores jogadores de Go da história (Go é uma espécie de Xadrez japonês), para designar o grau de habilidade dos jogadores, no século XVII.

Nas artes marcias ainda imperava o sistema de graduação dos Koryu (estilos antigos). Na verdade este sistema tinha muitas variaveis, mas o mais conhecido era o Menkyo Kaiden. Neste sistema, bem como em suas variações, a cada “passo” ou “avanço” que os praticantes conseguiam, eles recebiam um título, bem como um diploma ou pergaminho com instruções. As artes marciais eram segmentadas, com determinados conteúdos sendo passados apenas para alunos com determinados títulos. Levando em conta que haviam muitas variações, uma sequência comum em diversos Koryu era a sequinte:

Shoden —> Chuden —> Okuden —> Menkyo Kaiden

Esperava-se do Shoden o conhecimento básico das técnicas, algo equivalente ao atual Shodan. O Chuden era capaz de executar técnicas mais avançadas e elaboradas. O Okuden recebia ensinamentos das ditas “técnicas secretas” do estilo, e era considerado um praticante avançado. Finalmente, depois de aproximadamente 10 anos de treinamentos constantes, o aluno recebia o Menkyo Kaiden, com seu certificado de transmissão total, estando autorizado, a partir de então, a ensinar o estilo, e sendo reconhecido como um Mestre. Isto na teoria. Na prática haviam motivos muitas vezes escusos na concessão destes certificados, e nem sempre um praticante tinha realmente o grau técnico que seu certificado faria crer. Além disso as regras podiam variar muito de um estilo para outro, e poderia acontecer de dois Okuden terem capacidade totalmente distintas.

Foi Jigoro Kano, fundador do Judô, quem primeiro teve a idéia de usar o sistema Dan-i nas artes marciais (na verdade há quem diga que algumas escolas de Kenjutsu, em vias de se transformar em Kendô, teriam sido as primeiras a usar este sistema). Ele achava o sistema mais intuitivo, e que assim poderia padronizar as graduações. Ele passou a usar o sistema em 1883, um ano após fundar o Kodokan, quando separou seus alunos em dois grupos: Mudansha e Yudansha (grosso modo, sem graduação e com graduação, respectivamente). Mas somente a partir de 1886 os Yudansha passam a usar faixas pretas para representar sua graduação, cabendo aos mudansha a faixa branca. A ideia da faixa preta veio das equipes de natação japonesas, que tinham por costume amarrar uma pequena fita preta no braço dos melhores nadadores. As faixas coloridas surgem somente mais tarde, para diferenciar os vários níveis de Kyu, e fora do Japão – que num primeiro momento adota apenas a faixa marrom para os ikkyu.

No sistema de Kyu e Dan, os Kyu são reservados aos Mudansha, pessoas não graduadas, representando iniciantes, e seguem em ordem decrescente. O faixa branca é considerado mukyu (sem kyu), depois segue para, citando como exemplo o Aikido, a faixa amarela (gokyu), a faixa roxa (yonkyu), a faixa verde (sankyu), a faixa azul (nikyu) e a faixa marrom (ikkyu). Ao se graduar no estilo, o praticante continua como aluno, mas acredita-se que ele dominou o Kihon, o básico. Na verdade considera-se que o apenas os Yudansha, ou seja, os faixas pretas, são alunos. Os portadores de kyu seriam convidados, principiantes, que ainda estão aprendendo as bases, não o estilo em si. Isso até fazia sentido antigamente, quando não se demorava tanto para avançar para se graduar (há vários relatos de alunos que se tornaram Yudanshas em 2, no máximo 3 anos). Mas hoje todos são tratados como alunos do dojo. Shodan (1º dan) significa “Grau iniciante”. Seria aqui que o ensino passa a mudar, que o aluno passa a aprender o estilo em si. Até então ele precisou aprender as bases, construir os pilares de sustentação. Mas o prédio será erguido somente agora. De um yondan ou godan já se espera que a maior parte do conteúdo tenha sido assimilada.

Devido à padronização que o sistema Dan-i proporcionava, e também pela influencia que Jigoro Kano possuía, este sistema acabou sendo adotado por todas as Artes marciais japonesas. Na verdade, este sistema foi exportado e é usado em artes marciais coreanas, chinesas, entre outras. Respeitando-se o fato de que o currículo das diversas artes marciais varia, sabemos o que podemos esperar de um 1º kyu ou de um 3º dan, seja de Karatê, Taekwondô ou Aikidô.

Mais títulos

Além dos sistemas de graduação, seja o Menkyo-Kaiden, seja o Dan-i, havia, e ainda há, alguns títulos honoríficos que são concedidos para os mestres e instrutores – os chamado Shogo. Estes títulos seguem uma hierarquia, e são baseados em antigos títulos militares japoneses. Via de regra são concedidos por Associações ou Organizações oficiais, e possuem diversos e complexos requisitos. Normalmente a graduação mínima requisitada é de Yondan (4º grau), além de comprovada experiência de ensino, grande capacidade marcial e retidão de carater. Eis os títulos, em ordem hierarquica:

Renshi: historicamente era um guerreiro de alta capacidade, que liderava um grupo de guerreiros. Nas artes marciais representa alguém que contribui frequentemente para o engrandecimento do estilo e para a formação das pessoas.

Kyoshi: representava o guerreiro que treinava grandes tropas no Japão feudal. É um grau análogo ao de um professor universitário.

Hanshi: o professor dos professores, representaria, em comparação, um livre-docente. Este título é dado aos maiores mestres das artes marciais, dentro de cada estilo. Uma das exigências clássicas é ter 8º dan! É um reconhecimento ao Mestre pelo seu trabalho imprescindível para o Estilo.

Por educação, a pessoa que tem estes títulos NUNCA refere-se a si própria por eles. Estes títulos são usados em publicações, em correspondências oficiais, mas não em materiais de divulgação ou em apresentações pessoais. Alias, nem mesmo o título de Sensei deveria ser usado desta forma. E mesmo na hora de dispensar tratamento para pessoas que possuam estes títulos, chamamos eles de Sensei.

Há ainda mais um título, visto como acima do Hanshi, que é o Shihan. Este título é um pouco complexo, e exige uma analise melhor para seu pleno entendimento. Observando-se os títulos, vemos que SHI-HAN e HAN-SHI paracem ser formados pelas mesmas palavras em japonês, mas invertidas. Vejamos os Kanji que compõe estas palavras:

HANSHI 範士

SHI•HAN 師範

Podemos observar que o caracter HAN () é o mesmo, apenas está invertido. Seu significado é: modelo, padrão. Já o SHI ()de Hanshi significa acadêmico, cavalheiro ou guerreiro, enquanto o SHI() de Shihan significa professor ou mestre. O Shihan seria então o Mestre dos Mestres, aquele que ensina o Hanshi. No Judô este título é reservado ao fundador, Jigoro Kano. A Aikikai Japão, que confere os graus para os praticantes deste estilo de Aikido no mundo inteiro, tem suas próprias regras para conceder o título de Shihan, e eles aparentemente costumam comandar organizações, bem como têm o direito de graduar em kyu. Nem a Aikikai, tampouco o Kodokan/FIJ, parecem usar o sistema Shogo. A Aikikai concede títulos de Fukoshidoin e Shidoin (instrutor assistente e instrutor) para seus Yudansha, às vezes, com um funcionamento parecido, mas exigências mais modestas. Mas isto não impediria que alguma outra organização, em reconhecimento às contribuições de algum professor destas artes marciais, não concedesse o título a ele ou ela. O Shogo é uma forma de reconhecimento dos japoneses para os japoneses (claro, nada impede que um ocidental seja agraciado com estes títulos). É parte do complexo sistema social japonês.

Links consultados:

http://estudodosamurai.blogspot.com.br/2013/03/o-sistema-de-graduacao-koryu.html

http://jiujitsubronline.blogspot.com.br/2011/02/sistema-kyu-dan-o-sistema-kyu-dan.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dan_(artes_marciais)

http://www.aikidoriodejaneiro.com.br/files/1012/9390/2914/jornal-arj-shihan.pdf

http://makaracaju.blogspot.com.br/2012/01/titulos-nas-artes-marciais-de-origem.html

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