Estilos antigos – Koryu

por Helton dos Santos

 

Nas diversas artes marciais japonesas sempre nos deparamos com os chamados estilos, ou em japonês, ryu. Todas as Artes Marciais possuem estilos diferentes, que surgem quando um Mestre, ao discordar de certos pontos de sua Arte, modifica-os, fazendo com que a prática assuma aspectos diversos – mas não a tal ponto que fique totalmente diferente da original. Por exemplo, um certo estilo de Kenjutsu (esgrima) pode dizer que o correto é segurar a espada no alto, enquanto outro diz que o melhor é segurá-la de lado. Em um terceiro estilo, usar duas espadas ao mesmo tempo não é considerado errado, enquanto que nos outros dois, isto é um tabu. Às vezes as diferenças nos estilos são mais uma questão de interpretação de ensinamentos e preceitos filosóficos do que de técnicas em si – daí o fato de antigamente traduzirem o termo ryu como ‘seita’, algo que soa meio religioso hoje, mas que expressa bem o significado da palavra. Devemos sempre ter em mente que a tradução de termos de uma língua para outra sempre gera perdas de significado, por isso é preciso estudar e conhecer varias traduções possíveis, para entender qual a ideia que a palavra quer passar.

Geralmente os estilos antigos (Koryu) seguiam uma orientação familiar. Eram nomeados segundo o nome da família, e passados de pais para filhos, ao longo dos anos, tornando-se uma Herança Familiar. Alguns destes estilos, como o Takenouchi-ryu Jujutsu, existem há séculos, e o nome do atual Mestre do estilo ainda é Takenouchi. É raro encontrar uma Arte Marcial que seja unificada: normalmente os diversos estilos possuem as diversas técnicas que, agrupadas, formariam o corpo total de conhecimento daquela Arte – por assim dizer. Assim o é com o Kenjutsu (Esgrima): cada estilo possui características únicas, Kata próprios, Kamae diferentes e técnicas diversas. Embora algumas vezes as práticas de um estilo sejam semelhantes à de outro, possivelmente haverá algumas diferenças nos ensinamentos filosóficos ou na inclinação moral, no mínimo. Isto acontecia devido ao isolamento em que viviam os belicosos clãs japoneses. Possuir uma técnica diferente, e conhecer as técnicas do adversário, poderia ser a chave da vitória em guerras para conquistar terras agricultáveis, dominar certas passagens, possuir o direito de cobrar impostos de certas vilas, etc. Além disto, era costume haver duelos (algumas vezes de vida ou morte) entre mestres de diferentes estilos, para determinar qual estilo era superior. Os vencedores eram contratados como professores de esgrima e artes marciais por grandes senhores de terra (Daimyo), podiam fechar o Dojo do derrotado ou assumir a liderança deste, além de desfrutar de prestígio entre os Samurai e as pessoas comuns.

Com a Revolução Meiji, novas formas de se praticar as Artes Marciais deveriam surgir, visto que as armas de fogo, o fim dos Samurai e a nova sociedade que ali nascia, consideravam os Koryu como algo ultrapassado e sem sentido. Convém ressaltar que a maioria das Koryu seguem regras rígidas em sua prática, não dando lugar a criatividade e ao mínimo de descontração. Existem rituais que precisam ser religiosamente obedecidos, a movimentação é sempre treinada de modo a criar respostas automáticas dentro do sistema do Koryu estudado, e as técnicas são sempre estudadas como Kata.

Começam a surgir então novos estilos, muitas vezes junções organizadas dos diversos estilos antigos. Estes novos estilos já não têm por objetivo treinar soldados, e sim treinar cidadãos, não só para se defender, mas para contribuir para a nova sociedade japonesa, contribuindo para a saúde destes Homens, bem como para que tenham atitudes positivas e mentes alertas. A prática marcial foi escolhida em tal empreitada, tendo em vista a mentalidade nipônica, e seu culto aos caminhos guerreiros. Deste modo, tais práticas deixam de ser usadas apenas como Técnicas ou Artes (Jutsu), e passam a ser usadas como um Modo de Vida ou Caminho (Dô): Esta é a transformação do Bujutsu em Budô, e assim surgem as Artes Marciais japonesas modernas, tão praticadas hoje no mundo todo. Os Koryu não desapareceram porém, mas são encarados hoje mais pelo aspecto cultural do que marcial – embora seja um fato que o conhecimento que pode agregar para um Budoka seja imenso! O problema maior é que ao contrário dos Budô, estes Koryu Bujutsu pouco se espalharam fora do Japão, ocm algumas exceções.

 

 

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