O Jujutsu 柔術

por Helton dos Santos

 

O comum é traduzirmos Ju Jutsu, também grafado como Jiu Jitsu ou Ju Jitsu, dependendo das regras de tradução adotadas, como “Arte Suave”. Na verdade, são duas palavras cuja tradução é difícil de ser realizada ao pé da letra para nosso idioma. Uma língua carrega aspectos culturais próprios, e não necessariamente é possível traduzir todas as suas palavras para outro idioma. Assim sendo, é preciso pensar um pouco a respeito destes dois termos japoneses e seu significado, para compreendermos melhor sobre o que estamos falando.

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Começamos pelo termo JUTSU (術), mais fácil de entendermos. Normalmente traduz-se Jutsu por “Arte”. Mas creio que “Técnica”, ou “Modo de fazer” podem ser mais úteis para o entendimento completo de seu significado. Ou seja, não pense em arte no sentido de uma obra artística, como uma canção ou quadro (embora, para complicar tudo, de fato estes aspectos estão implícitos!!!), mas sim num modus operandi, uma pratica, um jeito de fazer uma coisa. Ocorre-me agora que o termo inglês “Craft” poderia ser usado como um excelente equivalente – e não o termo “Art”, como poderíamos ser levados a acreditar. Assim percebe-se a diferença, pelo menos caso o leitor tenha conhecimentos de inglês. Particularmente, preferimos o termo Técnica para traduzir Jutsu, mas não há problemas em usar Arte, desde que tenha ficado claro o sentido original da coisa.

Já o termo JU (柔), cuja pronuncia é bem parecida com ‘Djiuu’, por isso às vezes é escrito como JIU, embora não possamos dizer ser algo difícil de compreender, merece mais considerações do que Jutsu. Geralmente é traduzido como “Suavidade”, porém isto traz um significado um tanto quanto vago. Ju poderia ser traduzido, em um sentido mais físico, como flexibilidade, e em um sentido mais livre, como ‘Ceder para vencer’. Existe uma máxima japonesa (de origem chinesa, na verdade) que diz: Ju yoku go o seisu, cuja tradução para português pode ser: O Suave controla o duro – ou: O flexível controla o rígido. Conta-se uma história sobre isso: Yoshitoki Akiyama era um médico japonês que foi estudar na China. Lá teve contato com práticas Taoistas e com o conhecimento sobre os Meridianos do corpo. Um monge lhe teria ensinado uma Arte Marcial que fazia uso destas praticas e conhecimentos tanto para curar, quanto para defender-se. Retornando ao Japão, Akiyama tentou ensinar suas técnicas marciais, porém percebeu que seus conhecimentos eram incompletos. Sendo assim resolveu retirar-se para meditação nas montanhas, para revisar seus saberes. Durante uma forte nevasca, ao observar as árvores, percebeu que conforme a neve acumulava-se nos fortes galhos de algumas delas, por mais que fossem capazes de suportar muito peso, acabavam quebrando em algum momento. Então viu uma exceção: o salgueiro, mesmo com uma aparência mais frágil do que as demais arvores, e incapaz de suportar tanta neve quanto elas, tinha galhos flexíveis, que se dobravam após acumular certa quantidade de neve, deitando-a com suavidade no chão, não perdendo assim seus galhos. Akiyama teve então uma epifania, percebendo que nem sempre o mais forte vence. Teria então fundado a Escola do Coração do Salgueiro (Yoshin Ryu) de Jujutsu.

É este o sentido de Ju: Não opor resistência, ceder e adaptar-se à força do adversário. Diversas Artes Marciais (Bujutsu) no Japão seguiam estes preceitos, sendo Artes Marciais Suaves, em contraposição às Artes Marciais ‘Duras’, como o Sumô (onde há choque entre forças). Em cada região elas tinham um nome próprio, porém o termo JuJutsu (As técnicas de ceder, a Arte do JU) era como que genérico, e popularizou-se mais do que outros.  E todas as Artes Marciais que seguiam este preceito poderiam ser chamadas de Jujutsu, mesmo que as técnicas e desenvolvimento delas tenham sido diferentes! E mais ainda: as vezes haviam algumas Artes Marciais que seguiam o preceito de não opor resistência, que tinham técnicas parecidas, mas que usavam nomes diferentes! Yawara era um termo muito empregado, ao lado de Jujutsu, para nomear estes tipos de Arte Marcial – Yawara significa flexível. Outros termos que eram empregados, em maior ou menor escala e dependendo dos tipos de técnicas usadas, eram: Yoroi-Kumiuchi, Hakuda, Judô, Kempo, entre outros.

Um ponto interessante a se citar é que era muito comum o uso de armas, especialmente armas pequenas, nos treinos e no currículo dos antigos estilos (Koryu) de Jujutsu. É sempre necessário lembrar que os Koryu tinham por objetivo treinar soldados, guarda-costas e assassinos, por isso o praticante tinha que saber matar. Fora o fato de que os Bushi, como casta privilegiada do Japão medieval, tinham o direito de usar armas, direito este que eles exerciam com honra. Artes Marciais puramente desarmadas não eram vistas com bons olhos. A especialização em algum aspecto (apenas bastão, apenas arremessos, apenas socos e chutes, etc.) só veio a surgir mais tarde, na época que as Artes Marciais (Bujutsu) estavam se tornando Caminhos Marciais (Budô). O video abaixo dá uma noção de como era/é o Koryu Jujutsu. Ele mostra praticantes do Takenouchi-Ryu, um dos estilos mais antigos de Jujutsu do Japão, ainda praticado nos dias de hoje. Percebe-se o treino com armas e a marcialidade das técnicas, que não visam competições, e sim a derrota de um oponente.

 

Mas e quanto ao Jiu Jitsu moderno, dos Gracie? O Jiu Jitsu brasileiro, tão usado no MMA, com tantas academias em tantas cidades do Brasil?

Pretendo discutir o dito Brazilian Jiu Jitsu num post próprio, mas por hora basta ter em mente que ele pouco tem a ver com o Jujutsu antigo. Existe uma linhagem, claro, uma história, técnicas que vieram destes estilos antigos, mas a filosofia, o modo de treinar as técnicas, as características, enfim, a maior parte, difere. Entre os muitos Budô e artes marciais que descendem do Jujutsu antigo, o Judô (algumas partes) e (principalmente) o Aikidô são os que mais guardam semelhanças.

E um último ponto: é bem comum lermos por certos blogs que o Jiu Jitsu nasceu na Índia e era praticado por Monges budistas que não podiam usar armas… Tudo balela. Essa história começou a circular no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, e quem a inventou queria, provavelmente, dar algum tipo de legitimidade pro Brazilian Jiu Jitsu, por antiguidade. Eles também dizem que todas as lutas surgiram do Jiu Jitsu (do Judô ao Kung Fu), constituindo “partes incompletas” do Jiu Jitsu original. Mas essa história não tem nada a ver com nada… É a mesma história que a anos contam do Kung Fu, com pequenas diferenças (Índia ao invés de China, por exemplo). O Jiu Jitsu/Jujutsu, seja lá como você escreva, é uma Arte Marcial japonesa, que provavelmente teve influência chinesa (dalgum estilo de Kung Fu), e desde o começo era praticada por guerreiros (Bushi). Não era uma arte da paz, era uma arte de defesa pessoal em situações críticas e para matar. O Jiu Jitsu brasileiro é uma reinvenção, e é bem novinho. Surgiu no Rio de Janeiro, antes dos anos 1950, com os irmãos Gracie. Se apresenta como Arte da Paz às vezes, apesar de um histórico meio violento, conturbado, e é voltada para competições de vários tipos, duelos ou, com treinamento específico, para defesa pessoal. O Judô e o Aikidô NÃO vieram do Jiu Jitsu brasileiro!

 

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