Teoria x prática

por Helton dos Santos

 

Gosto de ler sobre Budô. Se você está aqui, deve gostar também, imagino. Ou talvez tenha caído aqui por engano, seja só um amigo conferindo meu blog, qualquer coisa assim… Não vá embora ainda! Embora o post tenha como tema a teoria x a prática no caso do Budô, na verdade serve pra praticamente qualquer assunto, de modo que pode ser interessante para todos. Gosto de ler livros, blogs, matérias em jornais e revistas (raro ver uma sobre Aikidô, ou sobre Judô que não seja sobre competições, hein?). Gosto de ver algumas matérias mais profundas, que tratem questões importantes (como o objetivo final do treinamento, o aperfeiçoamento pessoal, etc.), ou mesmo matérias mais leves, que falem sobre como se sentar, por exemplo. Mas toda esta leitura não passa de teoria. Budô não é sobre teoria, é sobre prática. 

Acredito firmemente que a teoria pode contribuir para a prática, mas apenas em certos aspectos. NADA substitui a prática! E mais vale alguém que pratica um pouco e não conhece a teoria, do que alguém que não pratica nada e sabe tudo sobre a teoria! O cara que está treinando a dois anos, duas vezes por semana, totalmente despreocupado com nada, nem saiu da faixa branca ainda, é Aikidoka. O cara que nunca treina, que mais falta do que vem, mas lê tudo a respeito de Aikidô, sabe alguns livros de cor, não é Aikidoka; é um teórico. 

Sobre isto há uma história que presenciei que acho formidável. Um Nanadan de Judô estava dando uma palestra sobre História, Filosofia e Ética do Judô – pura teoria, claro. Mas o cara é Nanadan, e tinha respaldo de um Hachidan na platéia, fora a esposa, Shodan de Aikidô e pesquisadora, que escreveu dois livros sobre Budô, com sua colaboração, e a própria Federação Paulista de Judô. Ele é um dos que podem falar sobre teoria a vontade! A ponto de a palestra dele, naquele ano, ser requisito para exames de Yudansha! Enfim, evento com personalidades importantes, em cidade pequena, convidaram autoridades municipais para participar como ouvintes. Após proferir sua palestra, o Nanadan (sei que é meio óbvio para alguns, mas como dizia um antigo professor de Geografia que tive, o óbvio deve ser dito. E como não fiz isto até agora, vá lá: Nanada é 7º grau de faixa preta. Hachidan é 8º grau. No caso do Judô a faixa destes graus nem é mais preta, é branca e vermelha intercalada, a famosa faixa coral) abriu para os ouvintes fazerem perguntas. Alguns praticantes de Judô, aspirantes à faixa preta ou a promoção de dan, fizeram algumas perguntas. Daí, quando parecia que tudo tinha acabado, o Secretário do Esporte do município perguntou, fascinado que estava com aquele bando de judokas ali reunidos:

“Seria possível obter esta disciplina do Judô, incorporar esse comportamento do Judoka, treinar alguém para ter esta retitude de comportamento e esta filosofia de vida, sem que a pessoa precisasse treinar Judô? Com jogadores de futebol, por exemplo?” – Na verdade não me recordo das palavras exatas, mas a ideia da pergunta era exatamente esta, tenho certeza. Eu estava sentado bem próximo a ele quando perguntou. Outras autoridades municipais que ali estavam ficaram igualmente interessadas. 

Bom, a pergunta foi interessante mesmo, não? Afinal, preciso que as pessoas treinem mesmo Judô/Karatê/Kendô/Etc. para obter os benefícios destas práticas? A parte física poderia ser suplantada por atletismo, futebol, qualquer outra coisa, não? 

kyudoescola

No Japão muitas artes marciais/Budô são treinadas na escola, quer como parte do currículo, quer como matéria opcional.

Bem… Acho que não. Não me lembro exatamente a resposta que foi dada, mas me lembro que na verdade tudo ficou meio aberto, mas mais puxado pro não do que pro sim. Claro que QUALQUER pessoa pode adotar uma filosofia de vida baseada em algum ensinamento, seja de Aristóteles, Buda, Maomé ou Jigoro Kano, e passar a seguir ela, após conhecer a teoria. Mas estas pessoas não criaram apenas uma teoria, tinha uma prática associada. Kano dizia que a prática de ataque e defesa (randori) poderia induzir mudanças de comportamento, uma mente tranquila, etc. Um bom psicologo poderia usar a filosofia do judô e criar uma atividade que causasse ao cérebro a mesma ideia do randori, claro. Mas não seria Judô, no final das contas, não teria sido testado, não teria sido a ideia do Mestre, estaria fora do contexto. E mais, a teoria muitas vezes difere da prática. Nada garante que um praticante de Judô não vire um meliante, ou que um drogado vá cometer crimes para sustentar seu vício. 

Vi uma postagem em um blog, tempos atrás, onde o blogueiro falava, várias vezes – parecia querer doutrinar alguém – como um Aikidoka deveria se comportar, o que deveria fazer, ou não fazer, e até que tipos de pensamentos deveria ter. O blogueiro ainda diz que é decepcionante quando ele encontra alguém que pratica Aikidô há muito tempo é não é daquele jeito, especialmente se a pessoa for faixa preta. Odeio quando usam esta palavra assim, mas vou ter que fazê-lo: esta pessoa está sendo utópica! E mais, meio ditadora, querendo impor um jeito de ser para outras pessoas. E dizendo o que o Aikidô tem que ser ou deixar de ser, algo que em minha opinião (veja isso, OPINIÃO) cabe aos Shihan fazerem, e não a nós, meros mortais. Claro, espero que a maior parte de vocês venha a se tornar Shihan um dia… Mas sejamos francos, né gente? Não é tão fácil assim… E mesmo entre os Shihan costuma haver divergência, as vezes até inimizade. 

Conhecer a teoria pode te ajudar, claro. Pode te dar um outro ponto de vista sobre um movimento, explicar o porque de termos que aplicar tal golpe de tal jeito, ajudar a entender porque fazemos Kata ou técnicas sólidas. Mas não vai fazer de você um Judoka/Aikidoka. Artes Marciais, Yoga, até Magia podemos citar aqui, é sobre prática. É sobre cansar o corpo, usar a mente, fortalecer o espírito. Até acho que no começo da prática, muita teoria pode atrapalhar. Pode fazer você pensar que sabe das coisas, quando na verdade não sabe. Do mesmo modo que a teoria ajuda a elucidar alguns aspectos da prática, a prática ajuda a entender corretamente alguns aspectos da teoria. 

Me ocorreu uma alusão agora, que achei bem engraçada: duas pessoas resolvem treinar musculação. Uma vai três vezes por semana e segue corretamente a orientação de um professor de educação física. A outra vai uma vez por semana, às vezes nem isso – mas lê muito sobre musculação, vê videos, estuda mesmo, a ponto de não precisar nem de orientações do professor, pois conhece toda a teoria. Tente adivinhar, depois de um ano, quem estará mais bem preparado fisicamente…

Sendo assim: bons treinos para todos! Mas não deixe de estudar, um pouco que seja, sobre a teoria de sua Arte Marcial, verá como é bom e como surpreendentemente poderá te ajudar! E se você, por qualquer que seja o motivo, não treina, mas gosta de ler tudo sobre a arte marcial – bom, não era minha intenção criticar. Se está tudo bem pra você, ok. Ninguem tem nada a ver com isto! Mas acredite, nada substitui a prática, e se tiver uma oportunidade, deveria experimentar. Que seja pra por em prática toda esta teoria que estudou!

Domo arigatô gozaimassu!

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  1. Pingback: Blogs mortos de Aikidô | Budoka da Cuesta

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