Arquivo mensal: janeiro 2016

As grandes escolas do ‘Boxe’ de Okinawa

Por Helton dos Santos

Nota: O termo Te, que compõe a palavra Kara-Te, costuma ser traduzido como Mão. Neste artigo, usando uma licença poética, resolvi traduzi-lo como Boxe, para nomear os estilos antigos de Karatê, quando a arte ainda se chamava simplesmente Te ou Tode, mas mantenho a tradução ‘mão’ quando compõe a palavra Karatê moderna. Meu raciocínio é o seguinte: Algumas escolas de Wushu (Kung Fu) as vezes são chamadas de Boxe chinês por ocidentais; O Muay Thai é o Boxe Tailandês; Ambas usam chutes também, mostrando que o significado de Boxe vai além daquele atribuído à Nobre Arte, o Pugilismo moderno. Já li artigos que tratavam o Savate francês como um tipo de boxe em que se usam os pés. Assim sendo, o Te é, no meu modo de ver, uma espécie de Boxe Okinauense, tanto quanto o Muay Thai é Boxe Tailandês. E Tode, que costuma ser traduzido como “Mãos Chinesas”, vira simplesmente “Boxe chinês”, em japonês. Não sei como o Boxe é nomeado no Japão, por isso mesmo friso que a tradução de Te como Boxe é uma licença poética minha (não sei se mais alguém já fez isto antes de mim). 

O arquipélago de Okinawa (também conhecido em português como Ilhas Léquias, nome que deu origem ao termo leque!), que fica ao sul do arquipélago japonês, era sede de um reino e de uma cultura própria, que antigamente não era ligada exatamente ao Japão. Ali existia o reino de Ryukyu, que chegou a tentar se filiar à China, no século XVII, mas acabou dominada pelo Clã Shimazu (uma importante familia Samurai durante o Xogunato Tokugawa) a partir de 1609, que exigiu o desarmamento da população civil, assim como passou a recolher impostos para o governo japonês. Em 1879, com o governo Meiji, as ilhas foram oficialmente anexadas pelo Japão, após uma contenda com a China, que foi resolvida pelo intermédio do ex-presidente estadunidense Ulysses S. Grant, que decidiu em favor ao Japão. Continuar lendo

Helton dos Santos

26 de janeiro de 2016

por Helton dos Santos

Às vezes, durante o treino, levantamos apenas para receber um novo golpe, para cairmos de novo… E de novo, de novo e de novo, até que ficamos cansados. Mas não podemos deixar de levantar. Por mais forte que tenha sido o último arremesso, devemos nos levantar e estarmos prontos para cair mais uma vez. Se cairmos 7 vezes, devemos nos levantar 8.

Até seria mais fácil ficar no chão, talvez. Mas isso é morrer! É desistir! É parar de aprender! E não é pra isso que subimos no tatame; subimos no tatame para aprender, para insistir, para viver! Mesmo que a queda tenha doído um pouco, lá vamos nós levantar de novo, para receber o próximo Irimi Nage ou o próximo Harai Goshi. E por isso que você aprende a cair primeiro, porque tem que treinar, e tem que cair, e tem que fazer isso incontáveis vezes. Você sempre vai ter treinado mais para cair do que para derrubar, porque nunca para de treinar pra cair, e esta é a primeira coisa que aprende. E sempre é possível aprender a cair melhor, assim como dá pra aprender a derrubar melhor.

Na vida, nós somos como que um Uke. A vida te derruba. Está cheia de dificuldades, cheia de obstáculos. Vai ter falta de dinheiro, uma pessoa próxima irá falecer, vai ter uma doença, vai ter que conseguir um emprego, vai ter que terminar amores e amizades, vai ter que recomeçar do zero, vai ter lidar com aproveitadores e oportunistas. E quando estas coisas acontecerem, uma delas, alguma delas, várias delas, cada uma a seu tempo ou todas juntas, caberá a ti uma escolha: quando a vida te derrubar, ficará deitado no chão, ou vai se levantar pra aguardar o próximo tombo?

Os poderes do Ki

por Helton dos Santos

 

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Son Goku com seu filho Son Gohan, ainda criança, no colo.

Quem curtia ver desenhos animados japoneses invariavelmente viu alguns personagens realizando façanhas incríveis com o poder do ‘Ki’. Em Dragon Ball os personagens davam muita importância à esta ‘fonte de energia’, que era até mesmo possível de quantificar e assim mostrar quão poderoso um personagem era. Son Goku e seu filho Son Gohan tinham os maiores Ki do universo, embora de vez em quando aparecesse algum vilão com um Ki ainda maior, querendo se testar contra os herois, para descobrir quem era O MAIS forte.

Em muitos games o Ki também é importante, a exemplo de Street Fighter, onde permite que diversos personagens usem ataques especiais, como o Hadouken, uma bola de fogo que pode ser lançada pelas mãos e atinge o adversário de longe, machucando-o como o mais forte dos socos. Conceitos parecidos com o Ki também aparecem por diversas obras de ficção, como a Força em Star Wars e o Cosmo em Saint Seya, entre outros.

Por conta de tudo isto, muitos escutam com ceticismo quando professores e praticantes de Artes Marciais falam sobre o Ki, um conceito que de fato existe e e é usado nas Artes Marciais de diversos países, especialmente Japão e China (onde é chamado de Qi ou Chi). Afinal, as pessoas ligam o Ki com a capacidade de soltar bolas de fogo pela mão, e ninguém realmente acredita que um budoka real possa fazer isso, certo? (CERTO??). Mas então, o que realmente é o Ki?
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Beleza

Acho que não há quem não concorde que o Budô tem uma beleza intrínseca à sua prática. Os movimentos, os golpes, o treinamento, costumam possuir uma plasticidade soberba. Fora isto há a beleza da filosofia, dos ensinamentos. Alias, não só os Budô, como as artes marciais da China, Coreia, Tailândia, do Ocidente… a luta pode ser muito bonita. Mas sou suspeito de falar, claro… Rs. Mas que tal vermos alguns vídeos que podem mostrar muito bem tudo o que acabei de dizer? Continuar lendo

Desprendendo-se

Eis aqui uma história que gosto muito, de origem budista. É possível acha-la fácil em diversos blogs. Aqui a conto com as minhas próprias palavras. 

Dois monges budistas, um já quase idoso, e outro jovem e promissor, caminhavam de volta para o seu mosteiro, após passar o dia fora. Resolveram pegar outro caminho, mais curto, mas no qual teriam que atravessar a vau de um rio. Ao chegarem próximo a margem, viram uma jovem mulher, muito bonita, usando um belo quimono, que parecia assustada e sem saber o que fazer. Como havia chovido nos dias anteriores, as águas estavam mais agitadas do que o normal. Ao ver os monges, a jovem foi até eles:

“Por favor, senhores, estou com medo de atravessar o rio, as águas estão agitadas, sou muito frágil e minha roupa não me permitiria nadar. Vocês poderiam me carregar até o outro lado?”

O monge mais jovem ignorou o pedido da mulher. Eram regras do mosteiro que os monges não deveriam ter contato com mulheres, nem mesmo lhe dirigir a palavra, por isso, mal olhando para a jovem dama, mete-se no rio e o atravessou sem maiores dificuldades. O monge mais velho, porém, abriu um sorriso cordial para a moça, a tomou nos braços e a levou para a outra margem. Ao ver a cena, o monge mais novo ficou chocado, mas nada disse. Continuaram sua caminhada, secando-se com o sol do fim da tarde, atravessando campos de arroz e trilhas de terra batida que cortavam matas e regatos. Durante todo o caminho o jovem monge ficava relembrando da imagem do monge mais velho, sorridente, carregando a mulher pelo rio, e esta lembrança o irritava, mas ele não falou nada. Para piorar, o monge mais velho permanecia impassível, com o rosto sereno.

Já estavam quase na porta do mosteiro quando o jovem monge não aguentou mais e vociferou, com o rosto vermelho de raiva:

“Como o senhor pode fazer aquilo? Sabe muito bem que somos proibidos de tocar em mulheres! Como pode carregar aquela mulher pelo rio?”

Surpreso o monge mais velho ergueu as sobrancelhas e disse:

“Ora, ora! Mas você ainda está carregando aquela mulher? Eu a deixei na beira do rio, mais de uma hora atrás!”

Porque no Judô só temos um Shihan, e no Aikidô temos vários?

por Helton dos Santos

 

Ainda falando sobre as diferenças entre Judô e Aikidô…

No Aikidô alguns Sensei, normalmente após atingirem o 6º Dan, recebem o título de Shihan, pela Aikikai. Pesquisando em várias postagens não consegui achar uma regra clara e que não deixe dúvidas sobre quando o praticante pode receber este título, mas o fato é que ele ou ela torna-se um representante do Aikidô, um responsável pela transmissão dos conhecimentos, de modo oficial, a partir de então. É comum vermos associações e organizações de Aikidô, encabeçadas por um Shihan, que Continuar lendo

Qual a diferença entre Judô e Aikidô?

por Helton dos Santos

 

Pois é, me fizeram esta pergunta recentemente. Não é tão difícil de pensar numa resposta, mesmo sob a pressão de um dialogo, quando você não tem tempo para raciocinar. Mas será que a resposta, que facilmente agrada a um leigo (e se a pessoa não for leiga não vai fazer uma pergunta dessas), esta realmente correta? Será que a diferença entre o Aikidô e o Judô realmente é esta que você falou? Continuar lendo