Jiu Jitsu Brasileiro

Já falamos sobre o Jiu Jitsu japonês (ou Jujutsu, como preferirem), o sistema de combate que os Samurai desenvolveram para situações onde uma espada não estava disponível ou não era suficiente. A fama do Jiu Jitsu japonês era mundial, isto já no século XIX. Existem explicações: O Japão foi até pouco depois da metade do século citado uma nação fechada, com uma cultura pouco conhecida pelos ocidentais, considerada ‘bizarra’ por muitos (‘exótica’ pelos mais educados). Sabia-se que era um povo guerreiro, mas que não estavam acompanhando bem o desenvolvimento tecnológico das armas ocidentais.

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Hélio Gracie, em um momento descontraído. 

Quando a nação finalmente abriu-se para o restante do mundo, virou uma vedete de todos os que gostavam de novidades. E descobriram que possuiu uma cultura fascinante, com danças, comidas, teatro, desenhos e tantas outras expressões artísticas únicas no planeta. E entre as suas características, estava o culto às Artes Marciais, e diversas formas diferentes de lutar, com ou sem armas. Os primeiros ocidentais que visitavam o arquipélago voltavam com histórias fascinantes sobre os lutadores de Jiu Jitsu, homens muitas vezes pequenos (os japoneses via de regra tinham um porte físico menor do que a média dos ocidentais, de modo que praticamente todos os japoneses eram pequenos aos seus olhos), mas que conseguiam vencer lutadores muito maiores, como os gigantes lutadores de Sumô ou mesmo os fortes lutadores ocidentais de Boxe ou Wrestling.

Isto fez com que o termo Jujutsu/Jiu Jitsu/Jujitsu passasse a ser conhecido por toda Europa e América, mesmo antes de a luta em si passar a ser ensinada no Ocidente, o que acabou não demorando muito pra acontecer, afinal. Mas com diversos estilos diferentes e sem uma organização central, o ensino do Jiu Jitsu pelo mundo era desorganizado, caótico e acabou não gerando grandes frutos. Ao invés de surgirem mestres ocidentais de Jiu Jitsu, o mais comum eramos ver lutadores ocidentais incorporando técnicas de Jiu Jitsu em seu repertório. Quando o Judô surgiu, porém, Jigoro Kano passou a enviar professores para ensinar no Ocidente, de modo organizado, com o currículo padrão do Kodokan Judô, que era mais didático. Mas no Ocidente ninguém sabia o que cargas d’água era Judô, por isso era ainda comum, nas primeiras décadas, chamar aquilo que era ensinado de Jiu Jitsu, tanto por parte dos alunos, como por parte dos professores japoneses, que afinal sabiam que Kodokan Judô era um estilo do Jiu Jitsu.

Foi em 1914 que chegou ao Brasil, depois de perambular por vários países ensinando Judô e lutando em desafios, Mitsuyo Maeda, vulgo Conde Koma. Conde Koma era um lutador soberbo, graduado em Judô (mas que sempre era apresentado como lutador de Jiu Jitsu, devido a este termo ser mais conhecido). Ele ensinou e lutou em várias cidades brasileiras, até chegar em Belem do Pará, onde faz amizade com um certo Gastão Gracie, pai de Carlos Gracie, que acaba se tornando seu aluno. Quando Carlos Gracie vai para o Rio de Janeiro, em 1925, abre sua primeira Academia Gracie de Jiu Jitsu, para ensinar o que havia aprendido com Conde Koma.

Existem outros grupos pelo Brasil que aprenderam Jiu Jitsu/Judô com Conde Koma: a maioria destes grupos passou a usar o termo Judô para nomear sua prática, conforme este nome foi ficando mais conhecido no país, e passaram a adotar as praticas atualizadas do estilo, conforme os ensinamentos de outros mestres que chegaram aqui depois. Outros grupos, porém, continuaram com a designação Jiu Jitsu, seguindo as tendências e praticas da família Gracie, líder deste segmento. De início as praticas dos Gracie e dos Judokas não eram tão diferentes. Mas com o tempo, mudanças que ocorriam tanto no Judô quanto no Jiu Jitsu dos Gracie fizeram com que a separação se tornasse cada vez mais visível, a ponto de hoje serem consideradas duas artes marciais diferentes, sem discussão.

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Capa do livro retirado da internet, mas tenho ele. Muito interessante, vale a pena ler!

Há quem estranhe que os primeiros mestres a ensinar Judô no Ocidente tenham aceitado que chamassem sua arte marcial de Jiu Jitsu, mas o fato é que este segundo termo era muito aceito, e tanto Judô quanto Jiu Jitsu, como outros termos também, eram intercambiáveis, considerados sinônimos. Existe um livro antigo no Brasil, da década de 30, chamado “Judô (Antigo jiu jitsu)”, que já esclarecia, na época, que o nome Jiu Jitsu estava caindo em desuso no Japão, e que o termo correto, segundo o então líder mundial do arte marcial, era Judô (referia-se o autor ao Mestre Jigoro Kano).

E vai além: no caso do famoso duelo entre Kimuro e Hélio, que aconteceu em tempos mais modernos, quando a confusão sobre o nome das artes marciais já estava começando a se desfazer, Kimura foi apresentado como campeão mundial de Jiu Jitsu. E Kimura, em uma entrevista, disse ter lutado com um praticante de Judô no Brasil, fazendo referência a Hélio Gracie. Ou seja, pros brasileiros Kimura era jiujitsuka, para os japoneses Helio que era Judoka!

As referências a este assunto são, hoje, bem comuns na internet. Até pouco tempo atrás já não era assim tão fáceis de achar. Mas o fato é, e isto não desfavorece nem favorece mais a família Gracie, que o Jiu Jitsu Brasileiro surgiu a partir do Judô de antes da 2ª Guerra Mundial (que era diferente do Judô de hoje, assim como todas as artes marciais japonesas de antes da segunda guerra eram diferentes), mesclado com conhecimentos e estrategias de combate próprios de Conde Koma e de cada um dos primeiros mestres Gracie e com a contribuição de outras lutas (principalmente o Wrestling), direta ou indiretamente.

Leia mais:

Matéria postada em fórum, e posterior discussão, sobre o Conde Koma e o inicio do Jiu Jitsu no Brasil

O livro Judô (Antigo Jiu Jitsu), do autor Kwanichi Takeshita.

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Uma ideia sobre “Jiu Jitsu Brasileiro

  1. Pingback: Ne waza no Judô | Budoka da Cuesta

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