Respeite seu adversário!

É um cena comum ao assistirmos competições esportivas: após muito esforço e desgaste, um dos competidores (ou todos com exceção de um) perde, e outro ganha. Emocionado pela vitória, o vencedor da gritos de alegria, comemora com a torcida, se ajoelha, agradece aos Deuses, faz diversos gestos com as mãos (socos no ar, coisas assim), e, dependendo da sua índole e do respeito (ou da falta de) que tem pelo adversário, de alguma forma o humilha, o xinga, o despreza. 

Tomando por exemplo o Judô, nele a vitória pode ocorrer por 4 formas diferentes: (1) o adversário é, por algum motivo, desclassificado ou fica impossibilitado de continuar a lutar; (2) o tempo acaba e você tem mais pontos que seu adversário, ou é escolhido como vencedor pelos árbitros por terem considerado que você lutou melhor; (3) você consegue fazer seu adversário desistir da luta através de uma chave de braço ou estrangulamento, o que se considera um Ippon; e finalmente (4), você consegue arremessar o adversário com força, técnica e velocidade, e ele cai com toda a costa no chão, fazendo com que você consiga marcar um Ippon. No Judô basta um Ippon para vencer um combate (noutras artes marciais esportivas pode ser necessário mais de um… no Kendô, por exemplo, é disputado pelo melhor de três). Muitas vezes, o que se vê logo após uma vitória no Judô (e em diversas outras artes marciais), são cenas como estas:

Parecem naturais, não? No futebol, no basquete, no atletismo, todos comemoram do mesmo jeito… qual o problema? O problema é que futebol, basquete, atletismo, etc., não são Budô. São esportes competitivos ocidentais, e não estão sujeitos a uma ética diferenciada, como no Judô. Para um Budô que prega o bem estar social, o uso racional das forças e a união entre as pessoas para construir uma sociedade melhor, fica meio estranho que numa competição, que deveria ser tão somente uma oportunidade de se testar em um simulacro de combate real para saber se suas técnicas são eficientes ou não, haja um desrespeito tão grande pelo outro.

Claro, pode-se argumentar que não há desrespeito, que é uma comemoração pela vitória, mas que logo depois o vencedor vai cumprimentar o perdedor, e que está tudo bem. Mas não é bem assim, no caso do Budô, ou não deveria ser. Existem vários pontos para se argumentar neste sentido, sendo os três a seguir os que considero principais:

  • Como dito, a competição no caso do Budô serve para emular um combate real, ou o mais próximo disso que as regras de cada modalidade permitirem, para usar as técnicas aprendidas. No caso do Judô, o fundador, Mestre Jigoro Kano, disse que numa competição não é a vitória que importa, e sim o esforço desprendido para tentar alcança-la. O que isto significa? Que você deve dar o melhor de si, manter o espirito marcial,ter treinado com afinco e usar seu conhecimento do melhor modo possível. Vencer a luta em si não importa: Se o perdedor lutou muito melhor, usou mais técnicas e demonstrou mais garra, mas perdeu por questões de regras, ou pelo uso excessivo de força por parte do vencedor, a vitória do vencedor não tem valor real, enquanto a derrota do perdedor possibilitou sem crescimento, pessoal inclusive. Este é o objetivo, não marcar pontos…
  • O combate numa competição é emulado, segue regras rígidas, e muitas vezes os competidores treinam pensando nestas regras, não na questão marcial. Assim sendo, um dangai de Karate pode derrotar um faixa coral e campeão mundial de Judô numa competição com as regras de Karate. A vitória numa competição é parte de um jogo, é lúdica, não tem valor real.
  • Tendo em vista que o derrotado é, tal qual o vencedor, um seguidor do mesmo caminho que o seu, espera-se companheirismo, ou no mínimo empatia por ele. Ambas sabem o que cada um pode ter passado para chegar ali, as centenas de uchi-komi, os treinos físicos puxados, o quanto caiu e levantou, o quanto pode ter se machucado. Porque, diante da tristeza do que perdeu, você fica vibrando? Poderia ter sido você ali, caído. Entender o que significa o Ippon pode ajudar a entender este ponto.

E o que significa um Ippon?

Nas antigas práticas do Bujutsu (artes marciais japonesas), não haviam competições – estas eram reservadas ao Sumô, que tinha um outro contexto. Até podiam haver combates mais amigáveis, mas via de regra disputas para descobrir quem era o melhor eram regidas pelo regra do Shinken-Shobu – a luta até a morte. A regra era simples nestes casos: o primeiro que morrer perde. Lutava-se com o máximo de esforço, porque ser derrotado significava que você iria morrer, e dependendo de haver armas ou não na luta (e geralmente havia), era comum que o vencedor acabasse morrendo depois, em decorrência dos ferimentos que poderia ter sofrido na contenda. Qualquer coisa era possível de acontecer em combate: jogar areia nos olhos, uso de veneno nas laminas, golpes poucos usuais ou em pontos fracos (alguém pensou em escroto? Eu sim…), etc. O perdedor não tinha como reclamar num tribunal desportivo, não havia como cancelar um ‘ponto’ concedido errado, e não havia punições por ‘faltas’. O Kenjutsu e o Jujutsu preparavam os Samurai para o Shinken-Shobu, para continuar vivo. Ia-se para a guerra ou para o duelo com o mesmo desejo: o de cortar a cabeça de um inimigo.

Mas entre os Samurai imperava um código de honra não escrito mas muito importante: o Bushidô. Eles consideravam que seguir o Bushidô era mais importante até do que viver, colocando a Honra acima da Vida. Os Samurai se respeitavam. Se deixarmos de lado um certo romantismo que ronda estes antigos servos guerreiros do Japão, veremos que nem tudo eram flores, que haviam sim muitos Samurai desonrados, mas no mínimo a ideia que imperava era a de respeito. Quando dois Samurai se enfrentavam, tinham em mente os conceitos de justiça, coragem, compaixão, cortesia, sinceridade, honra e dever (as 7 virtudes do Bushidô). Ao vencer, o derrotado conservava respeito, quase um luto, pelo adversário derrotado. Ele valorizava o homem que matou, não a vitória que obteve. Valorizava a vida, não uma medalha. E acima de tudo, mantinha Zanshin! Ele pode ter trespassado o adversário com uma lança, mas o que garante que num ato de extrema força de vontade o ‘derrotado’ não vai se erguer e conseguir forças para cortar a garganta do ‘vencedor’ com uma faca enquanto ele comemora dando soquinhos no ar, se ajoelhando e abrindo os braços?

Claro que em tempos de paz ou na sociedade moderna algo assim seria considerado brutal. Lutar até a morte é algo que soa como ficção para a imensa maioria das pessoas de hoje em dia. Durante o processo de modernização das antigas artes marciais japonesas, surgiu o Ippon-Shobu, a luta pelo ponto (não mais pela vida). A ideia era restringir certos golpes perigosos, oferecer alguma proteção aos agora competidores e estabelecer regras mais amplas, em uma luta onde, ao se conseguir um golpe que, se fosse uma situação real, o adversário com certeza teria sido derrotado, ou ao se conseguir um golpe perfeitamente aplicado, o que o fez marcava um Ippon, um ponto. Mas, apesar disso, deveria se lutar sob as regras de Ippon-Shobu com o mesmo espirito que se tinha no Shinken-Shobu, incluído aí o respeito pelo adversário derrotado, pois é como se ele estivesse morto. Você não deveria fazer festa e ficar pulando de alegria diante de um homem recentemente morto, e mais ainda, morto por você mesmo, não? A não ser que você seja um psicopata, sei lá… Claro, ele está tão morto/derrotado quanto você foi vitorioso no Ippon-shobu, em relação ao Shinken-shobu (vish… não sei nem se eu entendi o que eu quis dizer agora! Quis dizer que a condição de vitorioso/derrotado no Ippon-shobu é tão virtual quanto as regras deste são uma emulação de um combate real de vida ou morte, o Shinken-shobu).

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Imagina cair assim no asfalto? Dava pra rachar a cabeça… Isso é Ippon. 

A ideia básica, na verdade, é que seu ‘adversário’ só tem este nome dentro do Shiai-jo, apenas por alguns minutos. O tempo todo ele é um companheiro, mesmo que seja de outro time, e merece respeito, na vitória e na derrota. Existe um simbolismo no Ippon-shobu, não é algo sem significado. Os golpes antigos do Kito-ryu Jujutsu não visavam derrubar o adversário de costas no tatame, e sim de cabeça no chão para que ele quebrasse o pescoço – ter domínio de jogar o adversário de costas mostra que você poderia, se treinado para isso, joga-lo de cabeça; a imobilização por 25 segundos garante vitória porque é um tempo estimado para, após imobilizar um inimigo, alcançar uma faca e matá-lo com ela, enfiando-a em pontos fracos da armadura, articulações, etc. Chaves de braço e estrangulamento garantem uma submissão atualmente (três tapinhas), mas antes iam até o fim… Seja como for, a adversário derrotado é alguém para respeitar, tanto quanto se respeita um Uke. Foi a derrota dele que garantiu sua vitória, ele está simbolicamente morto aos seus pés, sua vitória é uma emulação de vitória em um simulacro de combate e ambos são companheiros na jornada de aprendizado do Budô. Há mais a aprenderem juntos do que separados por rixas ou desavenças. E você e a sociedade crescem mais com respeito e solidariedade do que com a humilhação de outrem (mesmo que seja uma humilhação não intencional).

E termino a postagem com uma citação do Dr. Jigoro Kano que gosto muito:

“Nunca te orgulhes de haver vencido a um adversário. Ao que venceste hoje poderá derrotar-te amanhã.
A única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância.”

Leia mais:

Decapitação de chineses por Japoneses durante o Massacre de Nanquim (tenha certeza de ter estomago para ver isso…)

A Vitória Total dos Japoneses, sobre inimigos capturados ou não (mais leve que o anterior, pode clicar a vontade!)

Chiaki Ishii, um dos maiores nomes do Judô no Brasil, repreende comemorações após vencer um adversário

Texto de um praticante de Kendô, outra visão sobre o assunto

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